Fefe Ramos em Entrevista


Alfredo Ramos Tavares ou simplesmente Fefe di Kandin nasceu no dia 16 de dezembro do ano 1950 na pequena aldeia pescatória da Calheta do Maio. Filho de Francisco Ramos Tavares (Ti Kandin) e Amélia Tavares Ramos. Fefe viveu uma infância tranquilo para os meninos do seu tempo, entre a escola, a pastoria e os seus banhos na linda praia da “Baxona”.  Apesar das dificuldades vivas pelo país no período após fome, Fefe acredita ter vivido uma infância tranquila e feliz. Hoje vive uma reforma tranquila e ativa na escrita dos poemas que segundo ele é fruto de uma inspiração espontânea.



Como foi a sua infância na Calheta e quais eram as ocupações de um jovem/ adolescente naquela época?

O único e maior vicio que tive durante a infância foi a bola, seja ela de meias ou de outro material qualquer.
Lembro de uma vez ter roubado na gaveta do meu irmão um pé do único par de meias que ele tinha para fazer uma bola, no domingo quando ele preparava para a missa procurou o par de meias e não encontro e teve que ir a missa sem as meias… como tinha sobrado um outro pé acabei por pegar e fazer uma outra bola.

A pastoria também era uma ocupação do meninos daquela época, tínhamos que sair de madrugada buscar as cabras e regressar a tempo de ir as aulas que começavam as 8:00, ou seja, tinhas-mos que fazer uma grande maratona durante a madrugada entre as brincadeiras e a procura dos animais nas montanhas e chegar a tempo do início das aulas, na maioria das vezes estudava-mos a porta da escola por falta de tempo de o fazer em casa. O mar também fazia parte das nossas rotinas, ate porque não havia outras coisas com que ocupar o tempo livre, nadar, lutar, correr, e pescar eram coisas que fazíamos sempre. Acredito que vivi uma infância feliz!

O seu Pai era Carpinteiro de Profissão, no entanto não seguiste a profissão do teu pai, porquê?

O meu Pai até tentou colocar-me a trabalhar com ele, mas tinha eu que cuidar dos animais e também era pequeno, quando já tinha 15 anos voltou a tentar fazer de mim um carpinteiro mas eu não gostava porque aquilo iria tomar muito do meu tempo e eu queria sai para conhecer coisas novas e pensei que a carpintaria seria uma prisão para na altura. Eu já tinha começado a namorar e ficar preso na altura era perder as namoradas conquistadas para outros e isso não queria, confesso.
Lembro de um episódio em que o meu pai ensinava-me a fazer algumas coisas e deixou-me serrar algumas ripas enquanto ele segurava, eu como não queria deixa-lo contente com o meu trabalho e me deixasse sair resolvi planear um acidente, deixe-o ausentar por um instante e aproveitei para magoar de propósito no dedo, quando ele voltou eu estava a sangrar no dedo e deixou-me sair jurou não mais insistir em ensinar-me aquela profissão. Aquilo era o que eu queria ouvir e o meu plano acabou dando certo, e assim vi-me livre da carpintaria e daquela “prisão”.

Como foi viver os anos 60/70 na ilha do Maio, época em que reza a história que foi anos revoluções e de muitas evoluções em vários pontos do globo?

A juventude sempre foi vista como uma fase de turbulência e de conflitos mas acredito que nos jovens da minha geração eles conflitos param-nos ao lado, pois fazia eu parte de um grupo de jovens que embora novos em termos de idade já eramos maduros e conscientes de muita coisa e graças a Deus fomos jovens saudáveis sem muitos vícios e sem fugir ao padrão da nossa sociedade naquela altura. É certo que a ilha do Maio e a localidade da calheta na altura era tranquila, sem muitos sobressaltos, mas também acontecia algo e os anos 60/70 foram anos que aconteceu muitas coisas que sem dúvida nos influenciou. A moda, a música entre outros aspectos da sociedade sofreu revoluções e já sentimos e acompanhamos algumas dessas mudanças.
A emigração ditava e nos actualizava do que se passava no mundo da moda e da música noutras paragens, o estilo Yé-yé (um estilo de musica pop que explodiu na frança) que teve o seu início nos anos 60 também chegou a pacata ilha do Maio, onde os jovens começaram a vestir e dançar consoante o estilo ditado por Serge Gainsbourg.
Anos depois chegou o estilo Pop dos anos 70, que também revolucionou a minha geração. O típico cabelo Pop, as calças boca de sino e justa na cintura, sapatos altos era o que na altura ditava a quem era os jovens actualizados e que seguiam a moda eu como tinha um irmão (o que na minha infância tinha o roubado um pé de meias para fazer uma bola) na Holanda estava sempre na moda graças as encomendas que recebia dele.

Como foi a sua passagem pela tropa, uma vez que ainda cabo verde fazia parte da colonia portuguesa?

No dia 5 de mês março de 1971, eu e o Amílcar “Milka Ti Lidia” fomos os únicos da ilha do Maio a fazer parte daquela incorporação, começando assim uma grande aventura na minha vida. Passei 28 meses ao serviço da coroa portuguesa entre o centro de instrução de infantaria de mouro branco em S. Vicente, os serviços de Cabo no quartel do platô e 6 meses de destacamento da Assomada. Aconteceu de tudo um pouco nessa minha aventura, tendo até que cumprir 10 dias de prisão por ter mudado de roupa sem autorização. Na altura o PAIGC lutava no territórios Guineense contra as tropas da portuguesa, tive a sorte de não ter constado na lista do soldados que iam lutar na guine por ter sido chamado por um mês antes dos meus colegas que rumaram para a guine onde travaram a luta armada contra os soldados Guineenses e Cabo Verdianos.

O que o levou a emigrar?

A emigração esta no DNA do Cabo-Verdiano e eu não fujo a regra, Cabo Verde é um país insular e de poucos recursos, onde a emigração surge sempre como um dos destinos de todos, alguns com o objectivos de estudar, outros a procura de uma vida melhor para a família, e no meu caso a emigração foi uma das saídas, até porque meu irmão mais velho já o tinha feito rumo aos Países-Baixos. Deus fez-nos para viajar o mundo, colocou-nos no meio do oceano separado entre nos por agua e com poucos recursos, e deu-nos uma grande capacidade de adaptação em diversas circunstâncias e é por isso que o povo Cabo-Verdiano encontra-se espalhado por toda parte, graças a sua capacidade de adaptação à diversidade.
Lembro com se fosse hoje, tive que viajar para cidade da Praia no dia 29 de dezembro, ficando sem festejar o réveillon de 1974 porque tive que viajar para a ilha do sal onde apanhava um voo para lisboa e depois uma longa viagem de comboio até Rotterdam onde vivia o meu irmão. A viajem de comboio destino a Holanda não chegou a ser concluída uma vez que fomos interditados pela polícia fronteiriça francesa tendo que voltar a Portugal, onde acabei por estabelecer e viver até os dias de hoje.

Como foi estabelecer em Portugal sem planos, uma vez que a viajem era rumo a holanda?

Aqui citava aquela frase “há males que vêm por bem” o facto de não ter chegado a holanda deu um novo rumo na minha vida. Na época vivia uma situação parecida com a que vivemos nos dias de hoje com essa crise, após 25 de abrir Portugal passava por problemas sociais e falta de emprego e lembro de numa das jornadas pelas ruas de lisboa a procura de emprego um Senhor perguntar se sabia alguma coisa de carpintaria e veio a memoria as frases que o meu pai tinha-me dito (um dia bu ta pega na oredja bu ka ta atxa sangue)
Acabei sendo contratado pela CARRIS - companhia carris de ferros de Lisboa, empresa pela qual trabalhei 30 anos.
Em janeiro de 2013 completo 38 ano a viver aqui em lisboa, cidade onde nasceu os meus quadros filhos e me aconteceu de todo um pouco.

Como é que a escrita entrou na sua vida e de onde vem a inspiração para escrever os seus poemas?

Para ser sincero não tenho uma explicação a dar da forma como entrou na minha vida a escrita, só sei que havia momentos que aquele vento de inspiração soprava e eu escrevia, isso desde os anos 80, mas o tempo era coisa escassa para quem trabalhava das 8:00 às 17:30. Atualmente estou reformado e com tempo de sobra, então resolvi por em prática o velho hábito, aproveitando a inspiração para registra e partilhar com os meus conterrâneos a minha escrita no facebook. Tenho alguns poemas partilhados em páginas do facebook e também nesse Blogue.

Planos para o Futuro?

Regressar a Cabo Verde é sonho de todos que por lá nasceu e o meu caso não será deferente.

E no ramo da escrita, quais são os planos?

Por influência e pedidos de uns amigos irei lançar em dezembro um livro de Poema edição Online na qual estou a trabalhar. Nas minhas escritas falo da emigração, da escassez da chuva, do amor, da situação pela qual a ilha do maio viveu e vive neste momento e é isto que prometo trazer no livro que será um presente meu á minha ilha querida.
Espero que venha ser bem aceito este trabalho que embora escrevo tarde (talvez) seja um contributo para a minha ilha.
Resta-me desejar muita força e coragem aos jovens Maienses e não só que Deus abençoou com o dom e a inspiração para a escrita que não escrevam para as gavetas mas que divulguem.


Ponta Kurral – Entrevistas


  


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